sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo - de que respeito estão falando?

"Quando acontece um erro no qual caem todos os homens, ou a maioria deles, creio que vale a pena voltar a ele muitas vezes para condená-lo" (Maquiavel) 

Fonte: Google Imagens
Se você não está disposto a parar de comer o “deus” alheio, por favor, não venha justificar defender  o ato dos malucos que entraram fuzilando pessoas no prédio do Charlie Hebdo!

 Gostar ou não do humor provocativo e escrachado do veículo é um direito. Criticar a linha editorial da publicação também o é. Tentar atenuar o absurdo de uma ação terrorista em função de um suposto excesso é doentio. Esse tipo de declaração parece sempre uma piada de péssimo gosto; daquelas que, para alguns, justificaria uma carnificina em nome, sei lá, da evolução da espécie talvez. Absurdo, né?  Mas é assim mesmo, ideias absurdas costumam ter o efeito de gerar outras ainda mais cretinas.

Está bem, eu sei, prometi falar do caso do Charlie Hebdo e, portanto, o que está em jogo é o “respeito” ao profeta adorado pelos mulçumanos, ok! Maaaaas, e daí? É claro que eu respeito, SIM, os mulçumanos, mas, NÃO, isso não significa que eu deva concordar com as crenças, ideias e dogmas (???) da religião deles. Não significa que eu deva seguir os costumes que são deles e não meus. Se representar graficamente o profeta é proibido pelo islã, bom, espero e desejo que nenhuma criança mulçumana sonhe em ser cartunista quando crescer. Tal interdição, contudo, não deve impactar o comportamento e a liberdade de todos os outros seres humanos do planeta, certo???

Fonte: site boingboing.net
A lógica que orbita a ideia de respeito me parece bastante simples:

És católico? Ótimo, siga os ensinamentos de Jesus e pendure seu messias na parede acima da cama; És luterano? Perfeito! Ame Jesus e não adore as imagens que os homens criam dele e tudo ficará ok. Não és nada? Tudo bem também, não faça mal aos outros e tente ser feliz. Isso sim é respeito, o resto é desculpa de gente maluca para falar bobagem ou cometer insanidades.

A noção de que os alvos dos terroristas, os cartunistas, teriam de alguma forma provocado a ação dos extremistas islâmicos é tão absurda como aquela que atenua a ação de um estuprador pela procedência da vítima, sabe como? (Ah! Foi horrível o que aconteceu, MAS ela estava sempre com roupas provocativas e andava rebolando pra lá e pra cá ... o “mas” é sempre tão revelador ... é logo depois dele que os julgamentos e preconceitos costumam calcar terreno, é depois dele que as pessoas se revelam crendo estar amparadas pela frase que fora anulada, exatamente, pela ocorrência do “mas”).

Se alguém realmente acredita que um cartoon (de bom ou mau gosto) pode configurar provocação ou falta de respeito, espero, ho-nes-ta-men-te, que esta criatura não frequente – em nome da coerência (entidade que deveria ser divina) –, mais nenhum churrasco para não comer a “santa vaca” dos nossos amigos hinduístas. Espero, de coração, que também não se oponha ao uso da maconha e do santíssimo “daime” para não ferir as crenças dos rastafáris ou dos seguidores do “daime amazônico”. E, de preferência, que, na dúvida, não abuse do macarrão (pergunta para o Google sobre o “espaguete voador” e você entenderá). Afinal, respeito é bom e todo mundo merece, não é mesmo?

A meu ver, respeito é algo que devemos, sempre, às pessoas; mas jamais às ideias delas, sejam elas religiosas ou não. Respeito devemos aos homens e aos valores universais da humanidade, como a vida e a dignidade, e só. Além disso ... bom, além disso pra mim já não tem a ver com respeito, tem a ver com cerceamento à liberdade de expressão e pensamento, tem a ver com imposição do medo.


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