sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Verbalizando: Este é meu Rio Grande do Sul

Foto: publicada pelo site baguete, creditada ao perfil <http://flickr.com/photos/bombeador> 

Parece que setembro foi mesmo instituído como o mês internacional da intolerância. Ou melhor, da ignorância. Será? Prefiro acreditar que os gaúchos de Livramento estão contando uma outra história.

Vamos aos fatos ...

Na madruga do dia 11/09, o CTG (centro de tradições gaúchas) Sentinelas do Planalto, em Santana do Livramento, foi incendiado. De acordo com as autoridades locais, há fortes indícios de que o incêndio foi um ato criminoso. As maiores suspeitas apontam a uma retaliação à decisão da juíza Carine Labres de realizar no CTG o casamento de 29 casais. Dentre eles, um formado por duas mulheres. A cerimônia, marcada para o próximo sábado (dia 13), marcará o primeiro casamento entre duas mulheres dentro de um centro tradicionalista gaúcho.

NOTE, eu disse marcará e não marcaria.

Foto: Carlos Macedo (Agencia/RBS) publicada no site do jornal ZH

Então vamos lá verbalizar ...

Nada de cancelamentos ou postergações, nada de desistências ou receios, nada de lamentações ou mimimis. A galera de Livramento se mobilizou e organizou um mutirão para reconstruir o CTG, mas, a atitude vai muito além, reconstrói muito mais. Ela reaviva o verdadeiro espírito do povo gaúcho e os valores que deveríamos lembrar de cultuar.

Confesso que, embora nascida no RS em pleno 20 de setembro (revolução farroupilha),  nunca simpatizei com o movimento tradicionalista nem  mesmo com o cultuado “orgulho de ser do Rio Grande”. A própria revolução farroupilha, da qual meu estado tanto se orgulha e que garante “feriado” no meu aniversário, é um movimento fracassado que foi transformado em mito (cá entre nós, bem mal construído) ao longo dos anos – tudo isso, na base do varrer a sujeira para baixo do tapete e do maquiar as derrotas por meio da invenção de heróis.

O saldo histórico é uma representação do gaúcho como um revolucionário, um destemido guerreiro que luta pela liberdade do seu povo e pela valorização da sua terra. Se, conforme creio, os “farrapos” não mereciam ter essa imagem heróica (outra dia conto porquê), os verdadeiros gaúchos de Santana do Livramento, conquistaram esse honorífico direito.

Explico.  Após o incêndio criminoso, ao invés de tentar encobrir ou se esquivar do ônus de nossa cultura machista e discriminatória, o povo gaudério das bandas de Livramento pôs as botas, armou-se com pás, tijolos e pincéis, e foi lutar pela liberdade, pela justiça e pela valorização de sua terra. Um grande mutirão está reconstruindo o CTG e, mais do que isso, está construindo uma nova perspectiva à cultura gaúcha. A essa nova visão eu me rendo. Este sim é meu Rio Grande do Sul.

Foto: Carlos Macedo (Agencia/RBS) publicada no site do jornal ZH

O recado dos gaúchos de Livramento, assim como do patrão do CTG, parece claro: os verdadeiros tradicionalistas são aqueles que lutam pela liberdade, pelo direito à diferença e pela igualdade. A cultura de um povo se constrói e reconstrói a cada dia, a cada novo olhar. Livramento não será lembrada por mim pela intolerância de alguns, mas pelo surpreendente brio daqueles que estão reformando a história para que tenham, verdadeiramente, do que se orgulhar.

Esses gaúchos me enchem de orgulho, eles !sim! dão real sentido à tradição do RS. E, sendo assim, os gaúchos dizem, mesmo em absoluto silêncio: “sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

Que assim seja!


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