domingo, 3 de março de 2013

Resgatando textos antigos: Chalé Rosa


    Eu poderia ter uma mansão com piscina olímpica, ser chefe de uma grande empresa ou mesmo uma mulher admirada por muitos e com uma recheada conta bancária, mas a verdade é que nada disso poderia ser tão grandioso quanto as lembranças daquele chalé rosa de esquina e dos seres mágicos que passaram por lá durante minha infância.
O pequeno castelo dos meus poucos anos de vida não tinha muitos metros quadrados, mas possuía um jardim encantado, cultivado pelas mãos de uma senhora bondosa e iluminada, alguém que meus pais me ensinaram a chamar de “vó”. Àquela pequena grande mulher sempre teve o riso frouxo e mãos de fada que transformavam as fazendas do balaio de palha em vestidos e casacos. Pura mágica para uma criança que tentava seguir seus pontos alinhavando pequenas vestes às bonecas guardadas, cuidadosamente, à terceira gaveta da cristaleira.
Durante todos os dias do ano as portas do chalé permaneciam abertas. Lá de dentro saía um cheirinho de comida capaz de dar inveja aos grandes chefes. Mas o encanto do pequeno reino da minha infância ficava ainda mais luminoso durante o fim de ano. À esta época, o lugar tornava-se acolhida a quem chegasse, eram tios e tias, primos e primas ... todos transitavam pelos cômodos e enchiam o chalé de vida.
Meus grandes heróis (meus pais), me deixavam desbravar todos os cantos do pátio (que parecia imenso ao meu olhar); lá eu construía castelos de areia, piscinas de lama, túneis que imaginava poder me levar a outros mundos. Foi ali, em meio à terra e à sombra do pessegueiro, que aprendi a fazer e compartilhar meus primeiros “bolos de areia”, todos saboreados com minhas primas. Foi naquele pequeno pedaço de chão que catei frutas do pé e que, principalmente, comecei a sonhar e construir meu próprio mundo.
As fronteiras do reino de minha vó sempre tiveram grades baixas, convidativas. A cor rosa passou a ser minha preferida; provavelmente, uma forma de alusão inconsciente àquele recanto familiar. É doce e reconfortante lembrar daqueles anos: o suco de laranja matinal, as histórias que ouvi sentada no degrau da cozinha comendo, despreocupadamente, uma enorme fatia de melancia. Como as frutas pareciam doces na casa da minha avó.
É possível que ninguém tenha percebido o quanto aquelas paredes me eram preciosas. Talvez nenhum dos seres encantados soubesse que eu os guardava como um tesouro. É provável que, até hoje, eles não saibam que um dia foram mágicos aos olhos de alguém que estava aprendendo a dar seus primeiros passos à descoberta do mundo. Seja como for, a verdade é que, mesmo de forma não declarada, terei cada um deles sempre comigo, manterei na minha mente a imagem criada há tantos anos por àquela garotinha.

Mesmo que hoje o chalé rosa não pareça tão grande e que já não haja as esculturas de areia na sua entrada, toda vez que eu voltar naquele lugar e me deparar com minha avó e seus trejeitos, terei a certeza de que ali está o maior e mais belo lugar do mundo. Embora eu já saiba que os seres que ali passam não são mágicos ou encantados, descobri que são bem mais ... eles são minha família, são as pessoas que me ensinaram a amar e a viver de forma digna e majestosa, seja em grandes palácios, seja em um pequeno chalé rosa perdido em alguma esquina de uma cidade do interior.

Um comentário:

Anônimo disse...


Muito lindo!!!!!!!
Uma transparência nostálgica que nos faz perceber toda a pureza e verdade de sentimentos!!!!!!