sábado, 12 de outubro de 2013

Engasgo


Enquanto todos parecem estar distraídos com as trivialidades que costumam levar à mesa, ela apenas ensurdece e assiste toda cena fora de si. À distância seu rosto sorri, ela quase acredita que há alguém ali olhando através de seus olhos, mas não há, ela sabe que não há.

Enquanto um rosto familiar lhe passa a travessa de macarrão, ela se vê servir, mastigar, deglutir, agradecer, mas sabe que tudo que seu corpo está fazendo é respirar ... apenas isso, inspiração seguida de expiração, uma após a outra. Ela, que observa a serenidade que parece habitar seus traços, mal consegue acreditar que a perversidade da dor que a consome e embrulha seu estômago não seja visível.

Ninguém parece notar que ela se ausenta de si, ninguém, assim ela crê, parece de fato estar ali. Quem seriam eles, ela se pergunta. A resposta é um eco. Ela entende que está só, não importa o que faça. Ela descobre que é uma ínfima parte de uma enorme farsa da qual não se pode escapar, ela engasga. Vê seu rosto enrubescer, seus olhos lacrimejam, ela olha para si e, então inspira outra vez apesar da dificuldade, não compreende o porquê do esforço.

 Ela já não pode se ver. Alguém lhe deseja saúde, ela sorri e pede para lhe alcançar o sal. Ela sabe que está mais sozinha do que nunca.


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