sábado, 10 de agosto de 2013

Dia dos pais - do modelo que for


Não suporto estas propagandas de “dia dos pais” que tentam vincular a imagem paterna à imagem materna. Já estamos em 2013 e ainda tem gente que insiste em perpetuar o discurso de que cuidar da criança é obrigação da “mamãe”, se o “papai” quiser ajudar isso será considerado com pontos extras e ele poderá ocupar o topo da escala de classificação paterna, ou seja, ser considerado quase uma mãe. Fala sério, que tipo de publicitário acredita que essa lógica pode, de alguma forma, estar homenageando a figura paterna? Quer dizer que ser um pai incrível, segundo os publicitários de fundo de quintal, é parecer com uma mãe – mas não uma mãe qualquer, e sim uma mãe estereotipada que, atualmente, só existe em propaganda e retrato de família – será isso mesmo?
Se não pode fugir dos rótulos, tudo bem, mas não dá pra engolir uma dita homenagem que sempre coloca, mesmo que nas entrelinhas, a figura do pai abaixo da figura materna. A ideia é que quanto mais parecido um pai for com uma mãe, melhor pai ele será ... não consigo entender. E olha que as propagandas não poupam esforços para tentar “equiparar” a imagem do pai ao “modelo de mãe”: tem propaganda com pai com criança no colo no meio da noite, tem pai na cozinha, pai na escola, pai de avental preparando café da manhã ... tudo em tons pastéis, com a mãe ao fundo observando sorridente ...
Apresentar um pai cujo maior potencial na vida de um filho é ser uma versão barbuda da mãe é, no mínimo, dizer que o papel dele é, inevitavelmente, de coadjuvante. Mas ... se assim querem os publicitários que sejam assim seus pais, só digo que esses aí não me convencem e, para ser sincera, não chegam nem aos pés do meu pai!

Meu pai nunca se pareceu com a tal figura de mãe-modelo (na verdade, nem minha mãe-mãe). Meu pai não passou noites em claro embalando berço, não ficou me segurando para evitar minhas quedas, não me defendeu das consequências de meus próprios atos e não me incentivou a ter auto-piedade ... meu pai passou longe de ser como a tal “mãe-modelo”, mas, certamente, ele conquistou meu respeito e, sem querer, se tornou meu modelo de pai.

Enquanto as mães-modelo ninavam seus filhos, meu pai desligava o som e se concentrava em garantir meu futuro. Essa tarefa o impediu de comparecer em quase todas as festas da escola, mas, ao mesmo tempo, permitiu que eu aprendesse a admirar o trabalho duro e a dedicação perfeccionista de quem quer fazer sempre melhor. Meu pai não pôde me ler muitas histórias, mas ele me mostrou os livros e me ensinou como escrevê-los.

Se as mães-modelo não mediram esforços para proteger suas crias do mundo, meu pai optou por uma caminho mais duro: ele apresentou o mundo pra mim. Sem restrições ou maquiagem, meu pai me mostrou todos os mundos, os submundos ... e todas as possíveis formas de se olhar para eles. Meu pai não me apontou o caminho, ele me deitou no chão e me mostrou que eu podia criar novas rotas, traçar novos ângulos e me arriscar um pouco mais. Meu pai me mostrou que andar pra trás me faz cair, manter os olhos vendados também ... e que, talvez, por mais alto que eu grite pode ser que ninguém responda meu chamado. Meu pai, hoje sei, teve medo de partir antes que eu pudesse lamber minhas próprias feridas.

Não vou mentir  aqui, a verdade é que nunca vi meu pai entre as mães-modelo que transitavam na minha escola esmolando notas ou pedindo explicações acerca do desempenho dos filhos, meu pai não foi até lá. Todavia, meu pai me mostrou que eu deveria ser a maior responsável pelo meu futuro porque eu seria a única pessoa que, segundo ele, jamais iria me faltar. Quando explicações precisaram ser dadas, elas foram exigidas de mim, assim mesmo, na cara e de supetão ... foi assim que meu pai me ensinou a chegar mais rápido à verdade, desviando das desculpas ... Sem saber o que aprendia, me tornei capaz de analisar, julgar e criticar meus próprios atos; foi com meu pai que aprendi a argumentar e a lutar pela justiça.

Meu pai foi o durão mais doce do mundo, pois negou a si próprio qualquer coisa que pudesse me “estragar”. Talvez fosse mais fácil me deixar totalmente à vontade, mas ele sabia que mais tarde o mundo iria  exigir que eu fosse mais humilde e menos voluntariosa – por isso ele teve que se negar o direito de fechar os olhos e se abster. Meu pai sabia que muitas atitudes consideradas engraçadinhas com pouca idade, tornam-se traços que não serão perdoados mais tarde.

Meu pai abnegou o direito de me criar para ele e se dispôs a formar um ser humano para o mundo. Mas ele não me permitiu fincar meus dedos no centro do mundo, ele me empurrou para o meio da multidão, no tumulto, me tornando uma pessoa singular, mais uma sim, mas nunca uma qualquer ... meu pai não se permitiu ficar comigo abrindo caminho, facilitando o meu e o seu trabalho. Ele me entregou ao mundo com uma bússola, uma mochila e com um guia constituído dos exemplos que ele, tenho certeza, se esforçou muito para prover. Teve que confiar no trabalho árduo que teve durante todos esses anos ...

Meu pai abriu mão de ser a “mãe-modelo” de propaganda - que se agarra aos filhos mantendo-os tão perto que os torna imóveis - para me ver caminhar para longe com os joelhos esfolados ... Sim, meu pai sempre escolheu  o papel  mais difícil. Hoje, entendo que ele fez isso exclusivamente para garantir que eu fosse capaz de partir, de deixá-lo ... meu pai abriu mão de  muita coisa e tudo que esperou ganhar em troca foi a certeza de ter formado um ser humano competente o suficiente para construir a própria vida e extrair do mundo toda felicidade e beleza que for capaz de enxergar.  
Se existe amor maior que esse, desconheço ... mas também, aprendi a amar com meus pais e, como deu pra ver, eles, os dois, sempre foram meio fora de modelo.


Pai, te amo muito, sempre! Obrigada por tudo!


Nenhum comentário: