quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os filhos de Dona Neli


Quem passa pela pequena Vila do Trapiche, no Laranjal, percebe a discrepância entre a exuberância natural da praia e os pequenos casebres que se enfileiram a beira da lagoa. A maior parte dos moradores da localidade está desempregada e a única atividade possível é a pesca no verão. No resto do ano, o que existe são histórias de abandono, descaso e miséria. Entretanto, um olhar mais atento descobre que nem tudo é como parece ser.

Escondida entre tantas outras, quase idênticas em simplicidade e precariedade de instalações, está a casa de Neli Martins Netto. Moradora do Laranjal há mais de 40 anos, tia Neli, como é conhecida, instalou-se na Vila do Trapiche em 2003. Aos 51 anos de idade, ela vem modificando não apenas sua história pessoal, mas a da comunidade a sua volta. “Jamais imaginei que minha vida iria se tornar o que se tornou: doação total”, desabafa Neli.

A vida dessa pelotense transformou-se no dia em que um menino chegou até ela comendo uma goiaba verde. Tocada ao notar a fome do garoto, Neli lhe ofereceu um prato de comida e guardou a goiaba, para nunca esquecer daquele momento. Hoje, a fruta está seca, mas Neli continua dividindo o pouco que tem com as crianças que chegam com fome à sua porta. Mais do que isso, dedica todo seu tempo e dinheiro para oferecer novas perspectivas aos meninos e meninas que vizinham sua casa. “Meu objetivo é vê-los formados e encaminhados, quero que se tornem pessoas de bem”. Viúva sem filhos, Neli mora sozinha em cômodo único, que converteu em ateliê. A pequena peça é decorada com desenhos, pinturas, fotos e bilhetes das 50 crianças que atende, além de livros e painéis educativos sobre o perigo das drogas.

Como o trabalho de Neli é voluntário, a ajuda que recebe é eventual. Mesmo assim, ela não pensa em desistir. Referindo-se às crianças, diz: “Sou eu para eles; não espero se alguém vai ajudar ou não. Precisando, vou atrás (...) As instituições não querem se envolver, não é interessante para ninguém ajudar pobre”.

Uma vez na casa de tia Neli, ficar ocioso é proibido. Durante a semana, as crianças podem, se quiserem, pintar panos de prato para vender. Aos sábados recebem aulas de teatro de voluntárias. Recebem também aulas de reforço – estudar é lema da casa.

Mulher simples de olhos vibrantes e pés inquietos, moradora de uma comunidade pobre, Neli vive para ajudar crianças que não são suas, mas trata como se fossem.

2 comentários:

Evelyn Bastos disse...

São vidas como esta que dão vida pra nossa profissão né Mabs!!! Beijocas ;)

Odiomar Teixeira disse...

Linda matéria, cuja abordagem só poderia ser da autoria de minha filhota.
Mas, ao mesmo tempo,revoltante o fato declarado pela tia Neli sobre "as Instituições não querem se envolver, não é interessante para ninguém ajudar pobre". Lamentável e vergonhoso, no mínimo!Bjão.