sábado, 22 de setembro de 2007

3054

Nosso silêncio mata e nossa culpa não cala

O circo estava todo armado e o país estava em festa mais uma vez. o Pan monopolizava os discursos da mídia ganhando a notoriedade típica dos carnavais. A violência parecia ter sido resolvida junto aos demais problemas do país, o que importava era o número de medalhas, a festa da torcida e a tão popular receptividade dos tupiniquins.


Mas por obra do destino ou, como prefiro acreditar, como reflexo da incompetência dos nossos eleitos representantes, a “fantasia brasileira caiu” e permitiu que nossa decadente realidade se mostrasse cruel e vil como há muito tempo já o é. Desta vez, nem mesmo o carnaval poderia obscurecer nossa visão, não havia mais como fugir. Nossos compatriotas estavam ao vivo em meio ao fogo, mortos anunciados pelo silêncio e pela inércia nacional, foi impossível negar a gravidade do fato e, passado o tempo, é impossível não lembrar.


A queda do vôo 3054 da Tam não foi uma tragédia e tampouco um acidente, o que vimos, ou melhor, o que o mundo inteiro viu foi o assassinato de milhares de pessoas, isso mesmo, milhares. A lista de mortos concedida pela Tam e divulgada por toda imprensa contabilizou, erroneamente, apenas as irreparáveis e indesculpáveis mortes físicas de centenas de pessoas, mas a meu ver as perdas vão muito além das contabilizadas.

No airbus não estavam apenas os passageiros, lá estavam famílias inteiras, sonhos, projetos de vida e um pedaço de cada um de nós. As chamas do prédio queimaram as esperanças de milhares, mataram parte do tradicional otimismo brasileiro que, quase sempre, chega perto da alienação, da utopia e do comodismo.

Muitos perderam a vida, outros a razão de viver, mas todos que sobreviveram ao último dia 17 de julho perderam a chance de serem inocentes. Somos todos culpados, assistimos passivamente a “construção” do crime, pagamos 20 milhões pela reforma da pista de Congonhas que foi entregue sem o grooving, vimos o acidente com a aeronave da Gol, vimos as pessoas amontoadas nos aeroportos, vimos uma CPI não chegar a lugar nenhum, vimos os pontos cegos nos radares, os controladores de vôo, fomos informados e alertados, fomos cúmplices do caos e, também, dos homicídios. Vimos tudo e não fizemos nada.

Diante do nosso recorrente silêncio e abnegação o que mais me assombra é constatar que ainda carregamos em nossas almas o comportamento de colonizados, justificando tudo pela impotência que nos parece nata, mas que na verdade foi sugerida e assimilada a mais de 500 anos. Receio que o tempo mais uma vez nos cure, que a nossa comoção seja tão fugaz quanto as manchetes da mídia e que voltemos a viver em nosso velho carnaval felizes e complacentes com nossa abominável mediocridade.

Já passou da hora de assumirmos as rédeas da nossa pátria amada, chega de torcer sentado, é preciso descer ao campo e suar em busca da vitória, da justiça, da saúde, da segurança, da educação e, acima de tudo, do respeito à vida do nosso povo que há tanto morre nas estradas, nos hospitais, nas ruas e sobre nossas costas sem que nada seja feito. Está em tempo de salvarmos o que nos resta de indignação, de força, de coragem e de humanidade.

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