quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Onde mora a violência?



Fonte: Google Imagens


Madrugada de segunda para terça-feira, centro de Pelotas. Área conhecida por abrigar muitos estudantes. Dois estampidos secos. Para uma filha de militar, um som inconfundível. Tiros. Susto, preocupação, revolta … 

Na manhã seguinte os vizinhos se aglomeravam para ouvir a história do atirador. Viu uma tentativa de arrombamento de uma de suas propriedades. Da casa em frente, atirou. Segundo relata, para cima. Apenas para causar medo.

Parabéns, senhor vizinho, sucesso! Estou apavorada por tê-lo por perto. Se a rua o aplaude, eu não sigo o coro. Desculpe-me, mas não pretendo me render aos argumentos vociferados pelo pelo senso comum. 

A primeira pergunta que gostaria de fazer é se tens porte de arma? Se sim, preferia que fosse revogado, e se não o tens, que fosses indiciado. Se, conforme crês, a tentativa de invasão lhe confere o direito de pôr em risco a vida de vizinhos e desavisados que transitam pela rua, fico curiosa para saber qual direito acreditas que adquirem aqueles que são ameaçados por suas ações? Por favor, responda-me. 

Fico, claro, indignada com a insegurança pública. Apesar disso, como privilegiada que sou, não posso alienar da questão as origens dos problemas sociais que levam aos altos índices de criminalidade que batem a nossa porta. Garanto, com base em dados, que não é por falta de cadeia ou por falta de armas e extermínio que pessoas são transformadas em bandidos, assaltantes e traficantes … Arrisco-me ainda a dizer que sua mentalidade está, ela sim, entre as verdadeiras razões para tanta violência.

Quando se vive e em uma sociedade que justifica a perda de uma vida em função do direito à propriedade, a fonte da banalização da violência se torna clara. Penso (solitária?) que quando a camada (teoricamente) mais esclarecida da sociedade não percebe que a vida humana está acima de todos os bens e se impõe a qualquer outro direito, torna inacessível as bases fundamentais à construção de um mundo melhor.

Meus vizinhos, que tudo têm, estão convictos que podem deliberar sobre a vida dos que julgam como os “vagabundos, drogados e bandidos”, os seres de segunda linha. Como se não fosse suficiente, sequer consideram o risco imputado aos colegas de "primeira classe” ao exercerem os direitos que consideram justos e evidentes. Diante desse quadro, só consigo pensar na seguinte questão: se podem matar, aqueles que são, mesmo que precariamente, assistidos pelo estado em seus direitos fundamentais, o que podem fazer os que sempre foram esquecidos? aqueles que, historicamente, estão excluídos do nosso maravilhoso e, conforme desejamos, inviolável condomínio de bem-estar social?


Adoraria que meu vizinho pudesse me responder.  

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A semana em três fotos

E na primeira semana de fevereiro ... 

# Um pouco de preguiça pós-escritura-sem-fim-da-tese

# Muita "feliciada" na gostosura peluda

# Caminhadas inspiradoras pelas belíssimas ruas de Pelotas

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Uma leitura para o domingo: post sobre a Websérie Sweatshop (by Maqui)

Fonte: Site Karol Pinheiro
Gosto de aproveitar uns minutinhos no domingo para conhecer e/ou ler posts de blogs que já adoro. Hoje, resolvi dar uma espiada em um que conheci há pouco tempo, mas que já amo. É o blog da Karol Pinheiro, uma jovem jornalista que dedica-se ao universo teen e possui uma vibe super alto-astral que é muuuuito contagiante (é impossível não amar a fofurice dela). Os posts do blog abordam de tudo um pouco e são escritos ora pela Karol, ora por colaboradores.

Entre eles está a sócia (???), amiga e produtora da Karol, a Maqui. Além de compartilhar umas receitas deliciosas e super práticas, a Maqui também dá ótimas dicas sobre assuntos variados. Um que me chamou atenção hoje trata de uma Websérie intitulada Sweatshop. A proposta do programa é levar  jovens que adoram compras e o universo da moda para trabalharem em uma fábrica de roupas no Camboja.  

Fonte: Google Imagens
É claro que a experiência é transformadora e estimulante. Acho que vale a pena dar uma passada para ler o post da Maqui e, para quem está afiado no inglês, também vale dar uma olhada na Websérie.

Veja um pedacinho: 



Destaco que não há em minha indicação qualquer intenção de criticar o mundo fashion e/ou o consumismo (quem seria eu para fazê-lo). Talvez minha única motivação seja incitar uma reflexão  sobre a possibilidade de um consumo mais consciente e responsável. Acredito que quanto mais o público estiver ciente do real funcionamento da indústria Fast Fashion, mais pressionará as marcas e a adequarem sua forma de produção, desestimando a exploração de trabalhadores que não possuem outras alternativas.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo - de que respeito estão falando?

"Quando acontece um erro no qual caem todos os homens, ou a maioria deles, creio que vale a pena voltar a ele muitas vezes para condená-lo" (Maquiavel) 

Fonte: Google Imagens
Se você não está disposto a parar de comer o “deus” alheio, por favor, não venha justificar defender  o ato dos malucos que entraram fuzilando pessoas no prédio do Charlie Hebdo!

 Gostar ou não do humor provocativo e escrachado do veículo é um direito. Criticar a linha editorial da publicação também o é. Tentar atenuar o absurdo de uma ação terrorista em função de um suposto excesso é doentio. Esse tipo de declaração parece sempre uma piada de péssimo gosto; daquelas que, para alguns, justificaria uma carnificina em nome, sei lá, da evolução da espécie talvez. Absurdo, né?  Mas é assim mesmo, ideias absurdas costumam ter o efeito de gerar outras ainda mais cretinas.

Está bem, eu sei, prometi falar do caso do Charlie Hebdo e, portanto, o que está em jogo é o “respeito” ao profeta adorado pelos mulçumanos, ok! Maaaaas, e daí? É claro que eu respeito, SIM, os mulçumanos, mas, NÃO, isso não significa que eu deva concordar com as crenças, ideias e dogmas (???) da religião deles. Não significa que eu deva seguir os costumes que são deles e não meus. Se representar graficamente o profeta é proibido pelo islã, bom, espero e desejo que nenhuma criança mulçumana sonhe em ser cartunista quando crescer. Tal interdição, contudo, não deve impactar o comportamento e a liberdade de todos os outros seres humanos do planeta, certo???

Fonte: site boingboing.net
A lógica que orbita a ideia de respeito me parece bastante simples:

És católico? Ótimo, siga os ensinamentos de Jesus e pendure seu messias na parede acima da cama; És luterano? Perfeito! Ame Jesus e não adore as imagens que os homens criam dele e tudo ficará ok. Não és nada? Tudo bem também, não faça mal aos outros e tente ser feliz. Isso sim é respeito, o resto é desculpa de gente maluca para falar bobagem ou cometer insanidades.

A noção de que os alvos dos terroristas, os cartunistas, teriam de alguma forma provocado a ação dos extremistas islâmicos é tão absurda como aquela que atenua a ação de um estuprador pela procedência da vítima, sabe como? (Ah! Foi horrível o que aconteceu, MAS ela estava sempre com roupas provocativas e andava rebolando pra lá e pra cá ... o “mas” é sempre tão revelador ... é logo depois dele que os julgamentos e preconceitos costumam calcar terreno, é depois dele que as pessoas se revelam crendo estar amparadas pela frase que fora anulada, exatamente, pela ocorrência do “mas”).

Se alguém realmente acredita que um cartoon (de bom ou mau gosto) pode configurar provocação ou falta de respeito, espero, ho-nes-ta-men-te, que esta criatura não frequente – em nome da coerência (entidade que deveria ser divina) –, mais nenhum churrasco para não comer a “santa vaca” dos nossos amigos hinduístas. Espero, de coração, que também não se oponha ao uso da maconha e do santíssimo “daime” para não ferir as crenças dos rastafáris ou dos seguidores do “daime amazônico”. E, de preferência, que, na dúvida, não abuse do macarrão (pergunta para o Google sobre o “espaguete voador” e você entenderá). Afinal, respeito é bom e todo mundo merece, não é mesmo?

A meu ver, respeito é algo que devemos, sempre, às pessoas; mas jamais às ideias delas, sejam elas religiosas ou não. Respeito devemos aos homens e aos valores universais da humanidade, como a vida e a dignidade, e só. Além disso ... bom, além disso pra mim já não tem a ver com respeito, tem a ver com cerceamento à liberdade de expressão e pensamento, tem a ver com imposição do medo.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Resenha Livros: A Trama do Casamento (Jeffrey Eugenides)


Nem bom, nem ruim, mas absolutamente decepcionante.


Depois de surpreender o mundo com o romance-novela “As Virgens Suicidas”, lançado em 1993, e ganhar o prêmio Pulitzer, apenas dez anos depois, com seu segundo romance, “Middlesex" , o escritor estadunidense, Jeffrey Eugenides, parece ter perdido a mão. Confesso que ainda não li o aclamado “Middlesex”, mas depois de “As Virgens Suicidas” Jeffrey estava entre meus queridinhos, certamente um forte candidato ao seleto grupo de autores às “releituras”. Acham que me precipitei ao julgá-lo com base em apenas uma obra? Pode ser ... mas, honestamente, quem já leu o primeiro livro do autor sabe que ele merecia essa canjinha de galinha, né? (e quem ainda não leu, por favor: corra! Agarre seu exemplar e devore-o, depois me agradeça pela dica que mudará sua vida hihihihihi).  

O terceiro romance de Eugenides, “A Trama do Casamento”, publicado pela Companhia das Letras, é um livro nhe, sabe como? Não é completamente ruim, mas está longe do que se espera de um ganhador do Pulitzer (maldita seja a expectativa baseada na ‘fama’ do dito cujo). Se me pedissem para definir a obra em uma única palavra, optaria por previsível. Do título ao ponto final, a obra se arrasta entre personagens desinteressantes e desenvolvimento a la “música sertaneja” (àquele em que você pode prever as palavras que seguirão).

Para dar um resume breve, posso dizer (sem spoilers)  que “A Trama do Casamento” narra os dilemas pós-adolescência-e-pré-vida-adulta de Madeleine Hanna, uma jovem meio insossa (pra não dizer chata) que se forma em letras na Brown University. O trabalho final (TCC) da letrada mocinha de Eugenides é focado nos romances românticos, estilo Jane Austen (heroína – conflito – casamento – fim).  Fica claro, portanto, desde o princípio que a obra de Eugenides é uma reciclagem das narrativas românticas, uma versão oitentista dos romances de Austen e cia. Como tal, a obra nos apresenta uma trama que gira em torno do coração da jovem Hanna e das dúvidas que ele impõe à moça ao insistir em balançar entre dois colegas de personalidades bastante distintas. O primeiro é o cara boa-praça, Mitchell Grammaticus, um descendente de gregos que está em busca de Deus e de um contato mais profundo com o universo místico. Eu diria que ele é o amigo colorido (meio empastelado) que não cansa de ser pisoteado pela mocinha. Já o segundo, Leonard Bankhead, é o personagem mais interessante da obra, um rapaz meio amalucado, mas, ao mesmo tempo, intelectualmente brilhante e profundamente vaidoso (as más línguas garantem que Eugenides representou descaradamente o escritor David Foster Wallace através de Bankhed, eu não de nada ...).

Deixando as fofocas de lado, preciso dizer que o livro não me cativou. A escrita de Jeffrey parece ter perdido fôlego, a obra é sufocada por um desenvolvimento arrastado, histórias paralelas irrelevantes, uma trama cansativa e surpreendentemente óbvia – daquelas que você pensa: mas é só isso mesmo??? (e a resposta é um sonoro: SIM, É SIM). Não sei o que pode ter acontecido com o autor do empolgante “As Virgens Suicidas”, mas posso lhes garantir que não encontrarão marcas suas na narrativa de “A Trama do Casamento”. Espero que ele esteja em um breve lapso criativo e logo volte a nos empolgar. Preciso muito de novos autores para futuras velhas (re)leituras.

Ficou na dúvida, ainda? leia um trecho do livro e tire suas próprias conclusões se vale ou não a leitura.

Título Original: The Marriage Plot
Tradução: Caetano Waldrigues Galindo

Dedicação: 440 páginas
Ano de Lançamento: 2012
Editora: Companhia das Letras


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Dia internacional da Memória do Holocausto

Fonte: Google Imagens

Há exatos 70 anos libertamos os sobreviventes daquele que ficaria marcado como o pior campo de extermínio já visto, como o maior exemplo da crueldade e ignorância do regime nazista: o campo de Auschwitz . 

Vale, portanto, lembrarmos, especialmente hoje, daquilo que fomos capazes de fazer e, ao mesmo tempo, de tudo que temos e que sempre teremos obrigação de evitar. Em função disso, recorro às palavras de Primo Levi que foi capaz de representar com maestria as condições degradantes impostas por homens a outros homens. 

Fonte: Google Imagens









Se é isto um homem (Primo Levi) 

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

(in "Se isto é um homem"de Primo Levi -
tradução de Simonetta Cabrita Neto)


Fonte:Google Imagens


"Aqueles que não podem lembrar o passado 
estão condenados a repeti-lo" 
(Jorge Santayana)






quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je suis Charlie


Dia triste para o jornalismo e para a democracia. Três terroristas atacaram a sede da revista francesa, Charlie Hebdo, assassinando 12 pessoas. 

Hoje, a única certeza é que as vozes silenciadas pela intolerância e pelo extremismo ignorante serão amplificadas pelos milhões que saem às ruas gritando "je suis Charlie". 

Não se pode calar um ideal, a liberdade é um bem supremo. A multidão que foi às ruas em protesto aos ataques deixou claro que nenhuma violência será capaz de amedrontar os que acreditam em valores como liberdade, igualdade e  fraternidade. Estes moldam nossas almas e guiam nossas ações. 

Existem mais canetas do que armas neste mundo, jamais esqueçam! A guerra deles já está perdida.